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Edição de 15-05-2009

SECÇÃO: Editorial

O Projecto Europeu

Celebrou-se no passado dia 9 de Maio – em Portugal a efeméride passou praticamente ignorada, não sei o que terá sucedido nos restantes países da União – o Dia da Europa.

A data assinala o dia em que o então Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Robert Schuman, leu aos jornalistas uma declaração que se tornou histórica: “A Europa não se fará de um golpe(...) [mas] far-se-à por meio de realizações concretas que criem, em primeiro lugar, uma solidariedade de facto”.

Estamos, hoje, bem distantes do espírito desses tempos.

A necessidade de reconstruir uma Europa dilacerada depois da guerra, a própria reconciliação histórica entre franceses e alemães, um forte desejo de paz entre os povos que o suplício vivido de 1939 a 1945 tornou premente, configuravam um claro desígnio europeu na actualidade seriamente abalado.

Os tempos são, agora, de medo. De alheamento.

A crise económica e o desemprego – prevê-se que, em 2010, mais de 8,5 milhões de europeus não tenham emprego –, a crise institucional, as rejeições de franceses e holandeses à Constituição Europeia e de irlandeses ao Tratado de Lisboa, o congelamento dos alargamentos, contribuíram para uma situação em que o receio do futuro, a desesperança, parece serem a tónica dominante.

Há, sente-se, desconfiança e desinteresse pelo Projecto Europeu.

Uma sondagem divulgada pelo jornal Expresso refere que 36% dos portugueses decidiram, já, que não votarão nas eleições europeias do próximo mês, invocando como razão precisamente um claro desinteresse ou descrédito no Projecto Europeu.

Afiguram-se-me sentimentos deveras perigosos.

Na indiferença e no medo medraram regimes e ideologias que quase destruíram o continente.

Pela minha parte, acredito profundamente na Europa.

Não na Europa da burocracia de Bruxelas, tantas vezes responsável pela falta de mobilização dos cidadãos, das imposições acéfalas, atentatórias de tradições e modos de fazer intemporais, frequentemente, até, ridículas, dos “cozinhados” para lograr, nas costas dos europeus, o que se não logra com a sua concordância.

Mas acredito numa Europa de culturas que dialoguem, que, sem provincianismos, se interpelam.

Acredito num projecto que, não obstante as suas debilidades, garantiu, ao longo de 50 anos, a paz e o bem-estar num continente que enfrentara, num espaço de pouco mais de 20 anos, duas guerras mundiais.

E acredito que as pátrias – no que esse sentimento tem de mais profundo – dependem muitos mais da defesa das suas culturas do que se consubstanciam em limites geográficos, fronteiras, nacionalismos bacocos.

Em suma, acredito que temos mais a ganhar do que a perder com a Europa.

Evidentemente, torna-se urgente repensar a União Europeia.

Da flexibilidade das suas instituições ao seu papel na cena mundial. Da criação de mecanismos de participação à conjugação necessária entre as especificidades nacionais a respeitar e a assunção de um projecto comum, mobilizador e solidário.

Mas relembrando que o alheamento e o medo nunca foram bons conselheiros.

É com esse espírito que votarei nas Eleições Europeias de Junho.

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