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Arquivo: Edição de 23-01-2009
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SECÇÃO: Entrevista |
ENTREVISTA Maria Celeste: “Construí uma carreira a pulso, com talento e humildade”Vem de completar trinta anos de carreira, assinalados com um espectáculo que encheu o Auditório da EPRALIMA e foi gravado para posterior edição em DVD. Natural de Asias, fiel às suas raízes, Maria Celeste tem percorrido Portugal e o mundo. A cantar. “O Povo da Barca” - A sua carreira já vai longa... Maria Celeste – É verdade. Já são trinta anos a cantar profissionalmente. P.B. - Que balanço faz? M.C. - Como na vida, tive, na minha carreira, momentos bons e momentos maus. Graças a Deus, os bons têm sido em número bem superior aos maus. P.B. - Consegue destacar um momento bom que sobressaia, que a tenha marcado especialmente? M.C. - Talvez este último espectáculo em que comemorei os trinta anos de carreira. O recinto estava repleto, o público recebeu-me muito bem, fui muito acarinhada. Foi um momento especial e comovi-me muito: os meus filhos actuaram comigo, pude homenagear os meus pais, estive rodeada de amigos. Foi uma boa forma de comemorar. P.B. - E um momento especialmente mau? M.C. - Não houve momentos especialmente maus (risos). Bem, se um espectáculo corre mal, é um momento mau. Já me aconteceu estar a actuar debaixo de uma forte trovoada, perto de Cabeceiras de Basto, e um raio queimou-me a aparelhagem. Não foi um momento particulamente feliz (risos). P.B. - Como é que tudo começou? Como surgiu a música na sua vida? M.C. - Comecei a cantar nas desfolhadas de aldeia, nos trabalhos do campo, com outras raparigas da minha idade. Cantava para enganar a fome. Cantei sempre, desde criança. Quando ia às romarias, com os meus pais, ficava a ver as actuações dos cantadores ao desafio e lembro-me de pensar que daria tudo para estar como eles, em cima de um palco. P.B. - Foi, então, o que sempre desejou fazer? M.C. - Sim. E esse desejo deu-me muita força de vontade, muita fé em mim. Construí uma carreira a pulso, fiz-me por mim própria, sem ajuda de ninguém. P.B. - Mas como começou a cantar profissionalmente? M.C. - Numa festa do Livramento, cantei, informalmente, com o Cunha, que já era um cantador ao desafio bem conhecido. Gostou da minha forma de cantar e convidou-me para actuar com ele. Oito dias depois, telefonou-me e anulou o convite. Disse-me que ninguém me conhecia. Cantei no Rancho de Asias, no Rancho de Paçô – Vila Verde. Quando as actuações terminavam, ficava a cantar à desgarrada e juntava-se muita gente para me ouvir. Depois, cantei no conjunto de Manuel Silva. Mais tarde, contactei uma editora e gravei o meu primeiro trabalho. Cantar foi uma decisão pessoal e solitária. P.B. - E conseguiu construir uma carreira. M.C. - Construí-a com talento e humildade. P.B. - A Maria Celeste tanto actua cantando ao desafio, como em grupo, com o seu conjunto. O que prefere? M.C. - (sorriso largo) Ah! Sem dúvida, a desgarrada. P.B. - Porquê? M.C. - Porquê? Não sei. Vibro mais, sinto-me mais alegre, mais divertida. Não tem explicação. P.B. - É verdade que, nos cantares ao desafio, algumas actuações são previamente combinadas? M.C. - É mentira. Isso seria matar o cantar ao desafio que se baseia na espontaneidade. Não quer dizer que, actuando muitas vezes com a mesma pessoa, não se repita uma ou outra quadra. Mas é raro. Canto o que me sai na hora. P.B. - E com o grupo? Só canta músicas originais? M.C. - Apenas originais. P.B. - Quem faz as músicas e as letras? M.C. - Sou eu. Quando estou triste, faço músicas tristes. Quando estou alegre, faço músicas alegres. A maior parte das vezes, escrevo na cama. P.B. - Na cama? M.C. - É verdade (risos). Às vezes, deito-me, adormeço e acordo, a meio da noite, com uma ideia. Pego no papel e na esferográfica e registo-a. P.B. - Quem é o seu público? M.C. - É gente de todas as idades e de todos os extractos sociais. Até crianças. As desgarradas, as concertinas, a música popular, voltaram a estar na moda, ganharam espaço entre a juventude. Os jovens voltaram a ter orgulho na música e na cultura popular. Sinto isso por todo o país. E verifico-o, particularmente, entre os portugueses que se encontram no estrangeiro. O emigrante é muito ligado às suas raízes. P.B. - Gosta de actuar no estrangeiro? M.C. - Gosto. Gosto muito. Actuar para os emigrantes toca-me de forma particular. P.B. - Faz muitas actuações fora de Portugal? M.C. - Mesmo muitas. A Paris, por exemplo, vou várias vezes ao ano. Em Fevereiro, farei vários espectáculos na Suíça. No Dia de Páscoa, estarei em Paris. Em Março, estou contratada para fazer seis espectáculos na Austrália. Em Abril, regresso à Suíça. Em Junho, irei a Lyon. Canto por todo o lado. P.B. - Acreditamos que as pessoas não fazem ideia dessa dimensão internacional da sua carreira. M.C. - É provável. Quase só não actuei em África (risos). Já estive na América, Canadá, Caraíbas, Alemanha, Suíça, França, Andorra, Inglaterra, Luxemburgo, Brasil... Eu sei lá! P.B. - São muitos países. M.C. - É quase uma volta ao mundo (risos). P.B. - E em Portugal? M.C. - Em Portugal, faço uma média de oitenta espectáculos por ano. Actuo principalmente no Minho e em Trás-os-Montes. P.B. - Disse, há pouco, que sente de forma especial os espectáculos que faz para emigrantes. Significativamente, um dos seus maiores sucessos tem como tema a emigração. M.C. - O “Português Emigrante” é um trabalho de parceria com o Carlos Ribeiro. Teve, realmente, muito sucesso. Foi, até, disco de platina. P.B. - A Maria Celeste vive da música? M.C. - Sempre vivi. É a minha profissão. P.B. - Em que é que a música mudou a sua vida? M.C. - A música, para mim, é tudo. Não consigo imaginar a minha vida de outra maneira. Adoro a minha família, mas, quando estou em cima de um palco, o público é a minha família. Sem a música, seria outra pessoa. Quero morrer a cantar. P.B. - E como é a Maria Celeste na intimidade? Como é quando não está a cantar? M.C. - Sou completamente diferente. Sou triste. P.B. - É verdade? M.C. - É verdade. Um amigo dos Estados Unidos disse uma vez, ao meu filho, que tenho dupla personalidade. Transformo--me no palco. E, quando faltam duas horas para um espectáculo, começo a sentir uma sensação diferente, começo a cantar, às vezes ainda em casa. O meu filho diz logo: agora é que começa a aparecer a verdadeira Maria Celeste (risos). As pessoas, se me vissem em casa, não me reconheceriam. No palco sou outra. Sou feliz. P.B. - A carreira não tem prejudicado a sua vida familiar? M.C. - A família é o que mais adoro. Pais, filhos... Como disse, ainda recentemente, no último espectáculo, homenageei os meus pais. A família está sempre comigo, no meu coração. Procuro que a carreira não prejudique a minha vida familiar. P.B. - A carreira tem, então, valido a pena. M.C. - Claro. Sobretudo alegra-me a facto de o público corresponder. Tenho um vídeo na internet, precisamente o “Português Emigrante”, que já foi visto por mais de cem mil pessoas. P.B. - Sente-se muito ligada à sua freguesia, ao concelho? M.C. - Nunca esqueço as minhas raízes. Orgulho-me de ser de Asias, de ser de Ponte da Barca. António Araújo e Arnaldo de Sousa |
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